Amigos, e que tal se escrevessemos aqui os poemas de que mais gostamos? Aqui vos deixo um muito bonito... REGRESSO AO LAR Ai, há quantos anos que eu parti chorando Deste meu saudoso, carinhoso lar!... Foi há vinte?...há trinta? Nem eu sei já quando!... Minha velha ama, que me estás fitando, Canta-me cantigas para eu me lembrar!... Dei a volta ao mundo, dei a volta à Vida... Só achei enganos, decepções, pesar... Oh! a ingénua alma tão desiludida!... Minha velha ama, com a voz dorida, Canta-me cantigas de me adormentar!... Trago d’ amargura o coração desfeito... Vê que fundas mágoas no embaciado olhar! Nunca eu saíra do meu ninho estreito!... Minha velha ama que me deste o peito, Canta-me cantigas para me embalar!... Pôs-me Deus outrora no frouxel do ninho Pedrarias d’ astros, gemas de luar... Tudo me roubaram, vê, pelo caminho!... Minha velha ama, sou um pobrezinho... Canta-me cantigas de fazer chorar! Como antigamente, no regaço amado, (Venho morto, morto!...) deixa-me deitar! Ai, o teu menino como está mudado! Minha velha ama, como está mudado! Canta-lhe cantigas de dormir, sonhar!... Canta-me cantigas, manso, muito manso... Tristes, muito tristes, como à noite o mar... Canta-me cantigas para ver se alcanço Que a minh’ alma durma, tenha paz, descanso, Quando a Morte, em breve, ma vier buscar!... Guerra Junqueiro
Eu pessoalmente adoro poesia, adoro escrever poesia; muitos amigos meus perferem a narrativa, acham mais coerente e verdadeiro. Eu, por outro lado acho que a poesia... tem o seu brilho especial, não sei explicar... Vejam estes dois poemas: ALENTEJO Outro é o tempooutra a medida Tão grande a páginatão curta a escrita. Entre o achigã e a perdizentre chaparro e choupo tanto paíse tão pouco Manuel Alegre, Alentejo e Ninguém gosto desse aí acima porque é muito simples... e tão verdadeiro, infelizmente... o Alentejo é-me muito especial para mimEste aqui é de outro alentejano loool na hora de pôr a mesa, éramos cinco: o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs e eu. depois, a minha irmã mais velha casou-se. depois, a minha irmã mais nova casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje, na hora de pôr a mesa, somos cinco, menos a minha irmã mais velha que está na casa dela, menos a minha irmã mais nova que está na casa dela, menos o meu pai, menos a minha mãe viuva. cada um deles é um lugar vazio nesta mesa onde como sozinho. mas irão estar sempre aqui. na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco. enquanto um de nós estiver vivo, seremos sempre cinco. José Luís Peixoto, a criança em ruínas.
Nox Noite, vão para ti meus pensamentos, quando olho e vejo, à luz cruel do dia, tanto estéril lutar, tanta agonia, E inúteis tantos ásperos tormentos... Tu, ao menos, abafas os lamentos, Que se exalam da trágica enxovia... O eterno mal , que ruge e desvaria, Em ti descansa e esquece, alguns momentos... Oh! antes tu também adormecesses Por uma vez, e eterna, inalterável, Caindo sobre o mundo, te esquecesses, E ele, o mundo, sem mais lutar nem ver, Dormisse no teu seio inviolável, Noite sem termo, noite do Não-ser! Antero de Quental
A um poeta Tu, que dormes, espírito sereno, Posto à sombra dos cedros seculares, Como um levita à sombra dos altares, Longe da luta e do fragor terreno, Acorda! é tempo! O sol, já alto e pleno, Afuguentou as larvas tumulares... Para surgir do seio desses mares, Um mundo novo espera só um aceno... Escuta! é a grande voz das multidões! São teus irmãos, que se erguem! são canções... Mas de guerra... e são vozes de rebate! Ergue-te pois, soldado do Futuro, E dos raios de luz do sonho puro, Sonhador, faze espada de combate! Antero de Quental
Sou novo nestas andanças, aproveito para saudar o pessoal e dizer k curto bué a cena hippie, gosto mto de música de 60 e 70 tipo doors, velvet underground e led zeppelin (mas n só). Quanto ao poema, Sá Carneiro para me estrear em grande a mandar postas O Recreio Na minha Alma há um balouço Que está sempre a balouçar Balouço à beira de um poço Bem difícil de montar... - E um menino de bibe Sobre ele sempre a brincar Se a corda se parte um dia (E já vai estando esgarçada) Era uma vez a folia: Morre a criança afogada... - Cá por mim não mudo a corda, Seria grande estopada... Se o indez morre, deixá-lo... Mais vale morrer de bibe Que de casaca... Deixá-lo Balouçar-se enquanto vive... - Mudar a corda era fácil... Tal ideia nunca tive... Mário de Sá-Carneiro
Yo conozco poesía en castellano (español), supongo que no os importará que ponga alguna Mario Benedetti - No te salves No te quedes inmóvil al borde del camino no congeles el júbilo no quieras con desgana no te salves ahora ni nunca no te salves no te llenes de calma no reserves del mundo sólo un rincón tranquilo no dejes caer los párpados pesados como juicios no te quedes sin labios no te duermas sin sueño no te pienses sin sangre no te juzgues sin tiempo pero si pese a todo no puedes evitarlo y congelas el júbilo y quieres con desgana y te salvas ahora y te llenas de calma y reservas del mundo sólo un rincón tranquilo y dejas caer los párpados pesados como juicios y te secas sin labios y te duermes sin sueño y te piensas sin sangre y te juzgas sin tiempo y te quedas inmóvil al borde del camino y te salvas entonces no te quedes conmigo.
Rafael Alberti - Amaranta Rubios, pulidos senos de Amaranta, por una lengua de lebrel limados. Pórticos de limones desviados por el canal que asciende a tu garganta. Rojo, un puente de rizos se adelanta e incendia tus marfiles ondulados. Muerde, heridor, tus dientes desangrados, y corvo, en vilo, al viento te levanta. La soledad, dormida en la espesura, calza su pie de céfiro y desciende del olmo alto al mar de la llanura. Su cuerpo en sombra, oscuro, se le enciende, y gladiadora, como un ascua impura, entre Amaranta y su amador se tiende.
Blas de Otero DIGO VIVIR Porque vivir se ha puesto al rojo vivo. (Siempre la sangre, oh Dios, fue colorada.) Digo vivir, vivir como si nada hubiese de quedar de lo que escribo. Porque escribir es viento fugitivo, y publicar, columna arrinconada. Digo vivir, vivir a pulso, airada- mente morir, citar desde el estribo. Vuelvo a la vida con mi muerte al hombro, abominando cuanto he escrito: escombro del hombre aquel que fui cuando callaba. Ahora vuelvo a mi ser, torno a mi obra más inmortal: aquella fiesta brava del vivir y el morir. Lo demás sobra.
Eu tb gosto mto de poesia mas nunca chego a decorar completamente, continuem a postar porque é TÃO BOM. Gostei muito d'A Noite, vou ver se medito e defino qualquer coisa que eu ache bonita pra pôr aqui... paz*
[Floriram por engano as rosas bravas] Floriram por engano as rosas bravas No Inverno: veio o vento desfolhá-las... Em que cismas, meu bem? Porque me calas As vozes com que há pouco me enganavas? Castelos doidos! Tão cedo caístes!... Onde vamos, alheio o pensamento, De mãos dadas? Teus olhos, que um momento Perscrutaram nos meus, como vão tristes! E sobre nós cai nupcial a neve, Surda, em triunfo, pétalas, de leve Juncando o chão, na acrópole de gelos... Em redor do teu vulto é como um véu! Quem as esparze - quanta flor! - do céu, Sobre nós dois, sobre os nossos cabelos. Camilo Pessanha
Da Influência da Lua Outono. O Sol, qual brigue em chamas, morre Nos longes de água... Ó tardes de novena! Tardes de sonho em que a poesia escorre E os bardos, a cismar, molham a pena! A o longe, os rios de águas prateadas, Por entre os verdes canaviais, esguios, São como estradas liquidas, e as estradas, Ao luar, parecem verdadeiros rios! Os choupos nus, tremendo, arrepiadinhos, O xale pedem a quem vai passando... E nos seus leitos nupciais, os ninhos, As lavandiscas noivas piando, piando! O orvalho cai do céu, como um unguento. Abrem as bocas, aparando-o, os goivos; E a laranjeira, aos repelões do vento, Deixa cair por terra a flor dos noivos: E o orvalho cai... E, à falta de água, rega O vale sem fruto, a terra árida e nua! E o padre-oceano, lá de longe, prega O seu sermão de lágrimas à Lua! A Lua! Ela não tarda aí, espera! O mágico poder que ela possui! Sobre as sementes, sobre o oceano impera, Sobre as mulheres grávidas influi... Ai os meus nervos, quando a Lua é cheia! Da arte novas concepções descubro, Todo me aflijo, fazem lá ideia! Ai a ascensão da Lua, pelo Outubro! Tardes de Outubro! ó tardes de novena! Outono! Mês de Maio, na lareira! Tardes... Lá vem a Lua, gratiae plena, Do convento dos Céus, a eterna freira! António Nobre
Há palavras que nos beijam Como se tivessem boca, Palavras de amor, de esperança, De imenso amor, de esperança louca. Palavras nuas que beijas Quando a noite perde o rosto, Palavras que se recusam Aos muros do teu desgosto. De repente coloridas Entre palavras sem cor, Esperadas, inesperadas Como a poesia ou o amor. (O nome de quem se ama Letra a letra revelado No mármore distraído, No papel abandonado) Palavras que nos transportam Aonde a noite é mais forte, Ao silêncio dos amantes Abraçados contra a morte. Alexandre O'Neill
Poema à boca fechada Não direi: Que o silêncio me sufoca e amordaça. Calado estou, calado ficarei, Pois que a língua que falo é de outra raça. Palavras consumidas se acumulam, Se represam, cisterna de águas mortas, Ácidas mágoas em limos transformadas, Vaza de fundo em que há raízes tortas. Não direi: Que nem sequer o esforço de as dizer merecem, Palavras que não digam quanto sei Neste retiro em que me não conhecem. Nem só lodos se arrastam, nem só lamas, Nem só animais bóiam, mortos, medos, Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam No negro poço de onde sobem dedos. Só direi, Crispadamente recolhido e mudo, Que quem se cala quando me calei Não poderá morrer sem dizer tudo. José Saramago
AUTOEUTANASIA SENTIMENTAL Me quité de en medio por no estorbar, por no gritar más versos quejumbrosos. Me pasé muchos días sin escribir, sin veros, sin comer más que el llanto. Me subí a la azotea, y me quité la vida de la pena y me dejé la pena de la vida para evitar aquella muerte lenta, de sufrir a lo loco sin ilusión apenas. Estuvo justificado moralmente que pasara a mejor vida -que pasara a ser otra- sin ayuda médica ni potingues eróticos. Dejé en el guardamuebles mi neuralgia, mis ojeras y mi precoz infarto. Después, llamé por teléfono a alguien desconocido que me acababa de enviar caléndulas. Gloria Fuertes