Mais Poesia...

Discussion in 'Portuguese' started by Ayesha, Sep 9, 2004.

  1. Ayesha

    Ayesha Member

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    Amigos, e que tal se escrevessemos aqui os poemas de que mais gostamos?


    Aqui vos deixo um muito bonito...


    REGRESSO AO LAR

    Ai, há quantos anos que eu parti chorando
    Deste meu saudoso, carinhoso lar!...
    Foi há vinte?...há trinta? Nem eu sei já quando!...
    Minha velha ama, que me estás fitando,
    Canta-me cantigas para eu me lembrar!...

    Dei a volta ao mundo, dei a volta à Vida...
    Só achei enganos, decepções, pesar...
    Oh! a ingénua alma tão desiludida!...
    Minha velha ama, com a voz dorida,
    Canta-me cantigas de me adormentar!...

    Trago d’ amargura o coração desfeito...
    Vê que fundas mágoas no embaciado olhar!
    Nunca eu saíra do meu ninho estreito!...
    Minha velha ama que me deste o peito,
    Canta-me cantigas para me embalar!...

    Pôs-me Deus outrora no frouxel do ninho
    Pedrarias d’ astros, gemas de luar...
    Tudo me roubaram, vê, pelo caminho!...
    Minha velha ama, sou um pobrezinho...
    Canta-me cantigas de fazer chorar!

    Como antigamente, no regaço amado,
    (Venho morto, morto!...) deixa-me deitar!
    Ai, o teu menino como está mudado!
    Minha velha ama, como está mudado!
    Canta-lhe cantigas de dormir, sonhar!...

    Canta-me cantigas, manso, muito manso...
    Tristes, muito tristes, como à noite o mar...
    Canta-me cantigas para ver se alcanço
    Que a minh’ alma durma, tenha paz, descanso,
    Quando a Morte, em breve, ma vier buscar!...

    Guerra Junqueiro​
     
  2. Kitaro

    Kitaro Member

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    Eu pessoalmente adoro poesia, adoro escrever poesia; muitos amigos meus perferem a narrativa, acham mais coerente e verdadeiro. Eu, por outro lado acho que a poesia... tem o seu brilho especial, não sei explicar... Vejam estes dois poemas:


    ALENTEJO​

    Outro é o tempo​
    outra a medida​

    Tão grande a página​
    tão curta a escrita.​

    Entre o achigã e a perdiz​
    entre chaparro e choupo​

    tanto país​
    e tão pouco ​

    Manuel Alegre, Alentejo e Ninguém​

    gosto desse aí acima porque é muito simples... e tão verdadeiro, infelizmente... o Alentejo é-me muito especial para mim​
    Este aqui é de outro alentejano loool​

    na hora de pôr a mesa, éramos cinco:
    o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
    e eu. depois, a minha irmã mais velha
    casou-se. depois, a minha irmã mais nova
    casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,
    na hora de pôr a mesa, somos cinco,
    menos a minha irmã mais velha que está
    na casa dela, menos a minha irmã mais
    nova que está na casa dela, menos o meu
    pai, menos a minha mãe viuva. cada um
    deles é um lugar vazio nesta mesa onde
    como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
    na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
    enquanto um de nós estiver vivo, seremos
    sempre cinco.



    José Luís Peixoto, a criança em ruínas.

    :)
     
  3. Ayesha

    Ayesha Member

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    Nox

    Noite, vão para ti meus pensamentos,
    quando olho e vejo, à luz cruel do dia,
    tanto estéril lutar, tanta agonia,
    E inúteis tantos ásperos tormentos...

    Tu, ao menos, abafas os lamentos,
    Que se exalam da trágica enxovia...
    O eterno mal , que ruge e desvaria,
    Em ti descansa e esquece, alguns momentos...

    Oh! antes tu também adormecesses
    Por uma vez, e eterna, inalterável,
    Caindo sobre o mundo, te esquecesses,

    E ele, o mundo, sem mais lutar nem ver,
    Dormisse no teu seio inviolável,
    Noite sem termo, noite do Não-ser!

    Antero de Quental

     
  4. Ayesha

    Ayesha Member

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    A um poeta

    Tu, que dormes, espírito sereno,
    Posto à sombra dos cedros seculares,
    Como um levita à sombra dos altares,
    Longe da luta e do fragor terreno,

    Acorda! é tempo! O sol, já alto e pleno,
    Afuguentou as larvas tumulares...
    Para surgir do seio desses mares,
    Um mundo novo espera só um aceno...

    Escuta! é a grande voz das multidões!
    São teus irmãos, que se erguem! são canções...
    Mas de guerra... e são vozes de rebate!

    Ergue-te pois, soldado do Futuro,
    E dos raios de luz do sonho puro,
    Sonhador, faze espada de combate!

    Antero de Quental​
     
  5. não me lembro

    não me lembro Member

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    Sou novo nestas andanças, aproveito para saudar o pessoal e dizer k curto bué a cena hippie, gosto mto de música de 60 e 70 tipo doors, velvet underground e led zeppelin (mas n só). Quanto ao poema, Sá Carneiro para me estrear em grande a mandar postas :)

    O Recreio

    Na minha Alma há um balouço
    Que está sempre a balouçar
    Balouço à beira de um poço
    Bem difícil de montar...


    - E um menino de bibe
    Sobre ele sempre a brincar


    Se a corda se parte um dia
    (E já vai estando esgarçada)
    Era uma vez a folia:
    Morre a criança afogada...


    - Cá por mim não mudo a corda,
    Seria grande estopada...


    Se o indez morre, deixá-lo...
    Mais vale morrer de bibe
    Que de casaca... Deixá-lo
    Balouçar-se enquanto vive...


    - Mudar a corda era fácil...
    Tal ideia nunca tive...


    Mário de Sá-Carneiro
     
  6. Ayesha

    Ayesha Member

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    Que bonito :)
     
  7. migle

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    Yo conozco poesía en castellano (español), supongo que no os importará que ponga alguna :)

    Mario Benedetti - No te salves

    No te quedes inmóvil
    al borde del camino
    no congeles el júbilo
    no quieras con desgana
    no te salves ahora
    ni nunca
    no te salves
    no te llenes de calma
    no reserves del mundo
    sólo un rincón tranquilo
    no dejes caer los párpados
    pesados como juicios
    no te quedes sin labios
    no te duermas sin sueño
    no te pienses sin sangre
    no te juzgues sin tiempo

    pero si
    pese a todo
    no puedes evitarlo
    y congelas el júbilo
    y quieres con desgana
    y te salvas ahora
    y te llenas de calma
    y reservas del mundo
    sólo un rincón tranquilo
    y dejas caer los párpados
    pesados como juicios
    y te secas sin labios
    y te duermes sin sueño
    y te piensas sin sangre
    y te juzgas sin tiempo
    y te quedas inmóvil
    al borde del camino

    y te salvas
    entonces
    no te quedes conmigo.
     
  8. migle

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    Rafael Alberti - Amaranta

    Rubios, pulidos senos de Amaranta,
    por una lengua de lebrel limados.
    Pórticos de limones desviados
    por el canal que asciende a tu garganta.

    Rojo, un puente de rizos se adelanta
    e incendia tus marfiles ondulados.
    Muerde, heridor, tus dientes desangrados,
    y corvo, en vilo, al viento te levanta.

    La soledad, dormida en la espesura,
    calza su pie de céfiro y desciende
    del olmo alto al mar de la llanura.

    Su cuerpo en sombra, oscuro, se le enciende,
    y gladiadora, como un ascua impura,
    entre Amaranta y su amador se tiende.
     
  9. migle

    migle Senior Member

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    Blas de Otero
    DIGO VIVIR

    Porque vivir se ha puesto al rojo vivo.
    (Siempre la sangre, oh Dios, fue colorada.)
    Digo vivir, vivir como si nada
    hubiese de quedar de lo que escribo.

    Porque escribir es viento fugitivo,
    y publicar, columna arrinconada.
    Digo vivir, vivir a pulso, airada-
    mente morir, citar desde el estribo.

    Vuelvo a la vida con mi muerte al hombro,
    abominando cuanto he escrito: escombro
    del hombre aquel que fui cuando callaba.

    Ahora vuelvo a mi ser, torno a mi obra
    más inmortal: aquella fiesta brava
    del vivir y el morir. Lo demás sobra.
     
  10. amarylia

    amarylia Member

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    Eu tb gosto mto de poesia mas nunca chego a decorar completamente, continuem a postar porque é TÃO BOM. Gostei muito d'A Noite, vou ver se medito e defino qualquer coisa que eu ache bonita pra pôr aqui... paz*
     
  11. Ayesha

    Ayesha Member

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    [Floriram por engano as rosas bravas]

    Floriram por engano as rosas bravas
    No Inverno: veio o vento desfolhá-las...
    Em que cismas, meu bem? Porque me calas
    As vozes com que há pouco me enganavas?

    Castelos doidos! Tão cedo caístes!...
    Onde vamos, alheio o pensamento,
    De mãos dadas? Teus olhos, que um momento
    Perscrutaram nos meus, como vão tristes!

    E sobre nós cai nupcial a neve,
    Surda, em triunfo, pétalas, de leve
    Juncando o chão, na acrópole de gelos...

    Em redor do teu vulto é como um véu!
    Quem as esparze - quanta flor! - do céu,
    Sobre nós dois, sobre os nossos cabelos.

    Camilo Pessanha
     
  12. Ayesha

    Ayesha Member

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    Da Influência da Lua

    Outono. O Sol, qual brigue em chamas, morre
    Nos longes de água... Ó tardes de novena!
    Tardes de sonho em que a poesia escorre
    E os bardos, a cismar, molham a pena!

    A o longe, os rios de águas prateadas,
    Por entre os verdes canaviais, esguios,
    São como estradas liquidas, e as estradas,
    Ao luar, parecem verdadeiros rios!

    Os choupos nus, tremendo, arrepiadinhos,
    O xale pedem a quem vai passando...
    E nos seus leitos nupciais, os ninhos,
    As lavandiscas noivas piando, piando!

    O orvalho cai do céu, como um unguento.
    Abrem as bocas, aparando-o, os goivos;
    E a laranjeira, aos repelões do vento,
    Deixa cair por terra a flor dos noivos:

    E o orvalho cai... E, à falta de água, rega
    O vale sem fruto, a terra árida e nua!
    E o padre-oceano, lá de longe, prega
    O seu sermão de lágrimas à Lua!

    A Lua! Ela não tarda aí, espera!
    O mágico poder que ela possui!
    Sobre as sementes, sobre o oceano impera,
    Sobre as mulheres grávidas influi...

    Ai os meus nervos, quando a Lua é cheia!
    Da arte novas concepções descubro,
    Todo me aflijo, fazem lá ideia!
    Ai a ascensão da Lua, pelo Outubro!

    Tardes de Outubro! ó tardes de novena!
    Outono! Mês de Maio, na lareira!
    Tardes...
    Lá vem a Lua, gratiae plena,
    Do convento dos Céus, a eterna freira!

    António Nobre
     
  13. Ayesha

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    Há palavras que nos beijam
    Como se tivessem boca,
    Palavras de amor, de esperança,
    De imenso amor, de esperança louca.

    Palavras nuas que beijas
    Quando a noite perde o rosto,
    Palavras que se recusam
    Aos muros do teu desgosto.

    De repente coloridas
    Entre palavras sem cor,
    Esperadas, inesperadas
    Como a poesia ou o amor.

    (O nome de quem se ama
    Letra a letra revelado
    No mármore distraído,
    No papel abandonado)

    Palavras que nos transportam
    Aonde a noite é mais forte,
    Ao silêncio dos amantes
    Abraçados contra a morte.

    Alexandre O'Neill
     
  14. migle

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    Poema à boca fechada

    Não direi:
    Que o silêncio me sufoca e amordaça.
    Calado estou, calado ficarei,
    Pois que a língua que falo é de outra raça.

    Palavras consumidas se acumulam,
    Se represam, cisterna de águas mortas,
    Ácidas mágoas em limos transformadas,
    Vaza de fundo em que há raízes tortas.

    Não direi:
    Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,
    Palavras que não digam quanto sei
    Neste retiro em que me não conhecem.

    Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,
    Nem só animais bóiam, mortos, medos,
    Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam
    No negro poço de onde sobem dedos.

    Só direi,
    Crispadamente recolhido e mudo,
    Que quem se cala quando me calei
    Não poderá morrer sem dizer tudo.

    José Saramago
     
  15. migle

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    AUTOEUTANASIA SENTIMENTAL

    Me quité de en medio
    por no estorbar,
    por no gritar
    más versos quejumbrosos.
    Me pasé muchos días sin escribir,
    sin veros,
    sin comer más que el llanto.

    Me subí a la azotea,
    y me quité la vida de la pena
    y me dejé la pena de la vida
    para evitar aquella muerte lenta,
    de sufrir a lo loco
    sin ilusión apenas.

    Estuvo justificado moralmente
    que pasara a mejor vida
    -que pasara a ser otra-
    sin ayuda médica
    ni potingues eróticos.

    Dejé en el guardamuebles
    mi neuralgia, mis ojeras
    y mi precoz infarto.
    Después,
    llamé por teléfono a alguien desconocido
    que me acababa de enviar caléndulas.


    Gloria Fuertes
     
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